30/05/2026
ÉBOLA: ANGOLA NÃO PODE ESPERAR PELO PRIMEIRO CASO PARA AGIR
MANUAL DA POPULAÇÃO PARA PREVENÇÃO E COMBATE DA DOENÇA PELO VÍRUS ÉBOLA
A doença pelo vírus Ébola voltou a representar uma ameaça grave para a nossa região. A República Democrática do Congo, país que faz fronteira com Angola, enfrenta um surto causado pela estirpe Bundibugyo, com elevado número de casos suspeitos e mortes. O Uganda também registou casos associados ao mesmo surto.
Isto não é motivo para pânico. É motivo para vigilância, responsabilidade e acção imediata.
O Ébola é uma doença grave e pode matar. Mas a sua transmissão pode ser interrompida quando a população conhece o risco, evita comportamentos perigosos e comunica rapidamente qualquer suspeita às autoridades sanitárias.
COMO SE TRANSMITE O ÉBOLA
O Ébola não se transmite por simples passagem na rua junto de uma pessoa saudável. A transmissão ocorre, sobretudo, quando alguém entra em contacto directo com sangue, vómito, fezes, urina, suor, saliva, sémen, leite materno ou outros fluidos corporais de uma pessoa doente ou falecida por suspeita de Ébola.
A doença também pode ser transmitida através de roupas, lençóis, colchões, agulhas, instrumentos médicos, superfícies ou objectos contaminados com fluidos corporais.
Pode ainda ocorrer transmissão por contacto com animais selvagens doentes ou mortos, especialmente morcegos, macacos e outros primatas, ou pela manipulação e consumo de carne de animais encontrados mortos ou doentes.
Uma pessoa infectada não transmite a doença antes de apresentar sintomas. Por isso, a detecção precoce dos sintomas é fundamental para proteger a família e a comunidade.
SINAIS DE ALERTA QUE NÃO DEVEM SER IGNORADOS
Toda a pessoa que tenha estado numa região afectada, que tenha tido contacto com uma pessoa doente, com um cadáver suspeito, com fluidos corporais ou com animais selvagens doentes ou mortos, deve estar particularmente atenta durante 21 dias.
Os sinais de alerta incluem:
Febre súbita, fraqueza intensa e cansaço anormal, dor de cabeça forte, dores musculares ou articulares, dor de garganta, vómitos, diarreia, dor abdominal, dificuldade em engolir ou respirar, sangramento inexplicável, em alguns casos.
Nem toda febre é Ébola. Pode tratar-se de malária, febre tifóide ou outra doença. Mas uma febre acompanhada de história de viagem, contacto de risco ou permanência numa área afectada deve ser tratada como suspeita até avaliação dos serviços de saúde.
O QUE A POPULAÇÃO DEVE FAZER PARA EVITAR A DOENÇA
Evite viagens desnecessárias para zonas com transmissão confirmada de Ébola, especialmente para áreas afectadas da República Democrática do Congo e do Uganda.
Não toque numa pessoa com sintomas suspeitos, nem nos seus fluidos corporais, roupas, lençóis, utensílios ou objectos usados.
Não lave, prepare, abrace ou transporte o corpo de uma pessoa que tenha falecido com sintomas compatíveis com Ébola. O cadáver pode transmitir a doença com elevada facilidade. O funeral deve ser conduzido por equipas treinadas, de forma segura, digna e respeitosa.
Lave frequentemente as mãos com água e sabão. Quando não for possível, utilize solução alcoólica adequada.
Não partilhe agulhas, lâminas, objectos cortantes ou materiais que possam ter contacto com sangue.
Não manipule nem consuma animais selvagens encontrados mortos ou doentes.
Evite contacto directo com sangue ou secreções de animais.
Não esconda sintomas, contactos ou viagens realizadas. Esconder informação pode colocar em risco a família, os vizinhos, os profissionais de saúde e todo o país.
Não divulgue rumores. Em situações de emergência sanitária, a mentira também mata, porque atrasa a procura de cuidados e destrói a confiança nas medidas de protecção.
SE ALGUÉM APRESENTAR SINTOMAS SUSPEITOS, O QUE DEVE SER FEITO
A primeira regra é simples: não tocar e não transportar de forma improvisada.
A pessoa com sintomas suspeitos deve afastar-se das demais pessoas e evitar qualquer deslocação em transporte público, táxi, motorizada ou viatura particular sem orientação sanitária.
A família deve comunicar imediatamente o caso à unidade sanitária mais próxima ou às autoridades locais de saúde, informando claramente se houve viagem recente, contacto com pessoa doente, participação em funeral ou contacto com animais selvagens.
Não se deve administrar injecções em casa, manipular vómitos, fezes, sangue ou roupas sujas sem protecção adequada.
Não se deve levar o doente de hospital em hospital, aumentando o risco de contaminação.
Os profissionais de saúde devem ser avisados antes da chegada do doente, para que preparem o isolamento, os equipamentos de protecção e os procedimentos de avaliação.
Quanto mais cedo o doente receber cuidados médicos de suporte, maior poderá ser a possibilidade de sobrevivência e menor será o risco de transmissão.
SE HOUVER UMA MORTE SUSPEITA
Ninguém deve tocar, lavar, vestir, maquilhar, abraçar ou transportar o cadáver.
A família deve comunicar imediatamente às autoridades sanitárias.
O corpo deve ser tratado por equipas especializadas em enterros seguros e dignos.
A dor da família deve ser respeitada, mas nenhum ritual funerário pode transformar uma morte numa cadeia de novas mortes.
Honrar uma pessoa falecida também significa proteger os vivos.
CONSELHOS IMPORTANTES PARA VIAJANTES
Quem pretenda viajar para regiões afectadas deve reconsiderar a viagem, salvo quando exista absoluta necessidade.
Quem tiver de viajar deve evitar hospitais ou centros de tratamento de Ébola sem autorização, funerais, contacto com pessoas doentes, contacto com cadáveres, mercados ou locais onde sejam manipulados animais selvagens doentes ou mortos e qualquer contacto com sangue ou fluidos corporais.
Ao regressar a Angola, o viajante deve informar correctamente o seu percurso, os locais visitados e qualquer contacto de risco.
Durante 21 dias após o regresso, deve vigiar diariamente o aparecimento de febre ou outros sintomas.
Se desenvolver sintomas, não deve viajar, não deve esconder a situação e não deve procurar atendimento sem comunicar previamente a sua história de viagem. Deve informar imediatamente as autoridades sanitárias e aguardar orientação para transporte e atendimento seguros.
A prevenção não consiste em perseguir viajantes. Consiste em identificar rapidamente os riscos, proteger a pessoa e impedir que uma suspeita se transforme numa transmissão comunitária.
MEDIDAS URGENTES QUE ANGOLA DEVE ADOPTAR
Angola deve agir antes do primeiro caso confirmado. A fronteira com a República Democrática do Congo, o movimento de pessoas, o comércio regional e as ligações aéreas tornam indispensável uma resposta preventiva forte.
O país deve reforçar imediatamente a vigilância sanitária nas fronteiras terrestres, aeroportos e portos, sobretudo nas rotas provenientes de áreas afectadas.
Os postos de entrada devem possuir profissionais treinados, equipamentos de protecção individual, instrumentos de triagem, formulários de investigação, meios de isolamento temporário e protocolos claros de encaminhamento de casos suspeitos.
As províncias fronteiriças devem receber especial atenção, com equipas rápidas de resposta, ambulâncias preparadas, unidades de isolamento, materiais de desinfecção, equipamentos de protecção e capacidade para investigar alertas em menos de 24 horas.
O laboratório nacional de referência deve estar preparado para receber, acondicionar, transportar e testar amostras com segurança e rapidez, utilizando métodos adequados à detecção da estirpe Bundibugyo.
As unidades sanitárias públicas e privadas devem ser alertadas para a definição de caso suspeito, para a necessidade de notificação imediata e para os procedimentos correctos de isolamento, colheita de amostras e transferência de doentes.
Angola deve manter equipas treinadas para enterros seguros e dignos, evitando que práticas funerárias sem protecção se transformem em focos de transmissão.
As autoridades sanitárias devem promover campanhas de informação em português e nas línguas nacionais, utilizando rádios comunitárias, igrejas, autoridades tradicionais, escolas, mercados, transportadores, agentes comunitários e redes sociais.
A Polícia Nacional, os Serviços de Migração e Estrangeiros, os serviços de protecção civil, as autoridades fronteiriças, os governos provinciais e os serviços de saúde devem actuar de forma coordenada, porque uma epidemia não se combate com instituições isoladas.
MEDIDAS DE BIOSSEGURANÇA PARA PROFISSIONAIS DE SAÚDE E PRIMEIROS INTERVENIENTES
Todo o profissional que receba um doente com febre e história de viagem ou contacto de risco deve pensar imediatamente na possibilidade de Ébola e activar o protocolo correspondente.
O atendimento deve ser precedido de triagem segura, isolamento do caso suspeito e comunicação imediata às estruturas competentes.
Nenhum profissional deve prestar cuidados directos sem equipamento de protecção apropriado e sem formação sobre a forma correcta de colocar e retirar esse equipamento.
O sangue, os vómitos, as fezes, a urina, as roupas, os lençóis, os resíduos hospitalares, os instrumentos e as superfícies contaminadas devem ser tratados como materiais potencialmente infecciosos.
As amostras biológicas devem ser colhidas, acondicionadas e transportadas apenas por pessoal treinado, segundo regras rigorosas de biossegurança.
As ambulâncias, salas, equipamentos e superfícies usados no atendimento de casos suspeitos devem ser correctamente descontaminados.
Qualquer profissional que tenha sofrido exposição acidental deve comunicar imediatamente o incidente, ser avaliado e acompanhado durante 21 dias.
Proteger os profissionais de saúde é proteger a linha da frente da defesa nacional contra a doença.
AS MELHORES PRÁTICAS INTERNACIONAIS PARA A OMS E PARA OS ESTADOS
A resposta correcta ao Ébola exige coordenação internacional, informação transparente e respeito pela dignidade das pessoas.
As melhores práticas incluem vigilância epidemiológica reforçada, investigação rápida de alertas, isolamento seguro de casos, rastreio e acompanhamento de contactos durante 21 dias, laboratórios capazes de confirmar a doença, equipamentos de protecção adequados, tratamento clínico precoce, enterros seguros e dignos e comunicação permanente com as comunidades.
A população deve ser informada com verdade, sem ocultação, sem alarmismo e sem discriminação.
As comunidades afectadas não podem ser tratadas como inimigas. Devem ser ouvidas, esclarecidas e integradas na resposta, porque nenhum surto é vencido contra o povo. Um surto só é vencido com o povo.
MENSAGEM FINAL À POPULAÇÃO ANGOLANA
O Ébola é perigoso, mas não é invencível.
A maior ameaça não é apenas o vírus. É a demora na comunicação, o medo que leva a esconder sintomas, a viagem irresponsável para áreas afectadas, o contacto desprotegido com doentes ou cadáveres, os funerais inseguros, a falta de informação e a circulação de boatos.
Angola tem a oportunidade de prevenir antes de lamentar.
Cada cidadão deve assumir a sua responsabilidade: evitar riscos, comunicar sintomas, proteger a família, respeitar as orientações sanitárias e exigir que as instituições estejam preparadas.
Diante do Ébola, um gesto imprudente pode causar muitas mortes. Mas uma decisão responsável, tomada a tempo, pode salvar uma comunidade inteira.
A prevenção começa agora.
A vigilância deve ser de todos.
A vida de Angola depende da responsabilidade de cada angolano.