Carta aberta à comunidade da EE Rui Bloem,
Muito precisa ser dito sobre o episódio de hoje (talvez ontem, dependendo da hora em que eu termine de escrever -- descobrindo que digitar, entre outras coisas, tendo só uma das mãos funcionando, não é fácil). Nenhuma é mais importante do que 'obrigado'.
Obrigado pelos gestos e palavras de preocupação diante do evento de hoje e seus desdobramentos. Sei que causei um transtorno, não só durante o episódio, mas também depois dele, já que precisei ser substituído (e serei até meu retorno na terça). Sei, também, que ajudei a criar um clima disruptivo num momento em que a escola precisava de tranqüilidade para a realização de uma prova que, a despeito de qualidade e finalidade absolutamente duvidosas, é oficialmente parte do processo de avaliação de nossa escola dentro do sistema. Sei que as palavras mais comuns num dia como hoje seriam 'me desculpem', mas aprendi que ser grato pela misericórdia exalta a grandeza de quem acolhe, sem tirar a culpa de quem é acolhido.
Obrigado -- mais importante -- por toda a confiança e respeito que me permitem fazer o trabalho que considero a raiz da minha existência. Não tenho muita certeza sobre se minha relação com o trabalho é saudável -- na verdade, tenho quase certeza que não --, o fato é que não consigo pensar em outro lugar em que minha vida faça mais sentido do que a sala de aula. (A biblioteca é um sonho de consumo, não um propósito de vida). Não é romantismo, eu não acredito que vou mudar o mundo, não vou mudar a vida de um aluno que seja, não sou capaz de mudar nem a mim mesmo, ao menos não como eu gostaria ou como seria necessário. Não é um projeto de vida, eu caí de paraquedas e nunca me preocupei em me preparar para outra coisa. É só que lecionar faz sentido, não tenho explicação melhor.
Finalmente, mas não menos importante, obrigado pela paciência, cuidado e por guardarem a distância física que eu precisava para me regular novamente. Sei que ali em volta estavam os professores Giovana, Arnaldo e Adilson, além das diretoras Anelize e Márcia e alguns alunos e outras pessoas que, em meio ao episódio, eu realmente não sou capaz de identificar. Sei que fui agressivo, que rejeitei tentativas e palavras de suporte, não fui capaz de explicar a natureza ou seqüência dos acontecimentos. Lamento que tenha causado tanto transtorno e agradeço por ter sido cuidado do modo complicado que foi o único que aceitei: me darem o tempo e o espaço que eu precisava.
Como é do conhecimento de parte significativa da escola, sou autista, com baixa necessidade de suporte e dotado de altas habilidades. Alguns diriam que sou altamente funcional, termo que é bastante controverso entre nós mesmos, mas que é menos desrespeitoso do que ouvir 'mas você nem parece autista'. Nós escondemos bem, não porque fomos ensinados ou porque queremos, foi como nos adaptamos, sem saber, para encontrar nosso lugar no meio da sociedade, principalmente aqueles de nós que só na vida adulta descobrimos quem somos e começamos a caminhada de construção de nós mesmos.
Ter altas habilidades e precisar de pouco suporte, infelizmente, não significa que eu dê conta de processar satisfatoriamente todo o caos que define a vida. Às vezes, o caos é maior do que o normal; às vezes, minha capacidade de responder ao caos é menor do que a normal; às vezes, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo; e tem hoje, que aconteceram as duas coisas e mais algumas que não costumam estar no cardápio.
Quando somos superestimulados sensorial e/ou emocionalmente, é bem possível que isso dispare uma resposta do tipo 'vida ou morte'. Pode ser uma implosão ou uma explosão, o fato é que não temos muito controle sobre o que fazemos nessas horas, mesmo que sejamos treinados em diferentes técnicas de auto-regulação. No meu caso, os episódios de desregulação tendem a ser explosivos, eu preciso gritar, sentir dor, quebrar alguma coisa antes de finalmente ser capaz de começar a recuperar o controle. Às vezes, relativamente freqüente até, eu percebo que tem uma explosão sendo construída, consigo verbalizá-la e adotar contramedidas com boa taxa de sucesso. Não foi o caso hoje. Claramente.
Quero me dirigir especialmente ao 2A, porque vocês viram boa parte dos primeiros sinais de que as coisas não estavam bem. Vocês NÃO são responsáveis pelo que aconteceu. Vocês certamente não ajudaram a melhorar a situação depois que eu avisei duas vezes que eu já estava no limite, mas NENHUM de vocês estava agindo para me agredir ou sobrecarregar, NENHUM de vocês estava tentando deliberadamente provocar o caos para me desestabilizar, NENHUM de vocês estava achando divertido me ver perdido pela sala, tentando dar um mínimo de sentido para toda a desorganização que não era exatamente culpa de vocês.
(E acabo de me lembrar da professora Karen, com quem fui muito grosseiro quando ainda estava na fase de construção da explosão. Obrigado por ser tão compreensiva).
Voltando ao 2A, sim, vocês dão trabalho, vocês são difíceis, mas eu sei que vocês não são maldosos, pelo menos não comigo. O modo como tudo aconteceu hoje poderia ter acontecido em qualquer classe; aconteceu com vocês e vocês não mereciam isso, NENHUM de vocês.
Não sei quantos autistas são assim -- dizemos que é um espectro justamente porque não é possível nos encaixar todos em modelos fechados --, mas eu continuo sabendo o que está acontecendo na minha cabeça durante a desregulação; eu "só" não tenho controle. Houve algum progresso, claro: eu não represento risco físico a ninguém além de mim mesmo e mesmo isso é uma exceção -- e talvez a experiência de "perder" temporariamente a mão direita crie uma nova trava de controle que elimine a dor do meu repertório de regulação.
Ainda não sei como esses dias "sem" a mão vão afetar meu trabalho nessa fase de encerramento do bimestre, mas vou encontrar um caminho.
Mais uma vez, sou grato por todo o cuidado com que sou tratado por colegas professores, gestores e alunos que formam nossa comunidade escolar. Agradeço, também, pela paciência de ler tudo até aqui (se bem que já fiz pronunciamentos mais longos); acredito que vocês mereciam alguma explicação por hoje. Não posso prometer que não vai se repetir, mas vou continuar tentando melhorar minha resposta ao caos.
São Paulo, 18 de junho de 2026.
Prof. Filipe MY
Professor Filipe
Professor Filipe de História (o japonês de óculos que assobia)
17/06/2026
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